Apólogo

Apólogo

"O velho Torquato dá relevo ao que conta à força de imagens engraçadas ou apólogos. Ontem explica o mal de nossa raça: preguiça de pensar.
E restringindo o asserto à classe agrícola:

- Se o governo agarrase um cento de fazendeiros dos mais ilustres e os trancasse nesta sala, com cem machados naquele canto e uma floresta virgem ali adiante; e se naquele quarto pusesse uma mesa com papel, pena e tintas, e lhes dissesse:
"Ou vocês pensam meia hora naquele papel ou botam abaixo aquela mata", daí cinco minutos cento e um machados pipocavam nas perobas!... "

(Monteiro Lobato - Cidades Mortas)

sábado, 14 de junho de 2014

Carta ao amigo William Rosa

Belo Horizonte, 14 de junho de 2014

"Meu caro amigo eu não pretendo provocar
Nem atiçar suas saudades
Mas acontece que não posso me furtar
A lhe contar as novidades
Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate o sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta"


    William, amigo que não se encontra mais entre os de cá.
    Hoje pensei diversas vezes em você. Lembrei-me dos primeiros dias do COPAC, quando sentamos para pensar o que seria o movimento, lá em 2010. Quando ainda alí na antiga salinha das Brigadas, tentávamos elaborar uma proposta de calendário de estudos semanais.
Aconteceria às terças. Iniciamos os estudos e eu pensei que seria fácil, mas não. Sua orientação era minuciosa, você sugeria que conhecêssemos a fundo a história de Belo Horizonte, assim me prontifiquei. Aprendí muito, como essa cidade foi planejada e como o capital se apropriou do espaço urbano para excluir os pobres, os pretos, os vadios, seja no nascimento da cidade, nos tempos de chumbo. Como a tradicional família mineira forjou esta cidade à seu modo, e como a localização territorial, a economia macro interferiria nesta que é a nossa Belo Horizonte.

    Os excessos policiais para com os negros, impedidos de ficarem no parque municipal, a elitização do centro da cidade, a exploração sexual tão disfarçada de glamour na época de Hilda Furacão, os capoeiristas do Floresta, os "vadios" debaixo do viaduto Santa Teresa, tão criminalizados, as prisões arbitrárias nesses locais e para estes atores somente.

    Por um momento, no dia de hoje, suspirei ao fechar os olhos e me encontrar novamente no mesmo cenário e sentí o quão pouco esta cidade forjada avançou.
Camarada, o projeto arquitetônico de BH, não por acaso se finda em 8 ruas centrais e congruentes. Não por acaso o cruzamento da Amazonas e Afonso Pena é estratégico pra dizer que alí, naquela "meiuca" de cruzamentos, seria o palco do ensejo à democracia, mas também carrega o resquício da cidade sitiada. Alí não há saída, as ruas desembocam no centro e o centro dá conta dos indesejáveis. Os loucos continuam compulsoriamente presos, as câmeras continuam caçando os pretos, pobres. As mulheres marginalizadas, os gays sofrem abusos nas madrugadas. William, tudo está como há 4 anos atrás, quando sentávamos para pensar quem se apropria do modelo de cidade-mercado.

    Mas hoje, especialmente hoje, meu caro, queria lhe dizer: A Copa do Mundo começou e nós do movimento que você ajudou a construir, estivemos sitiados. A polícia nos cercou com todo o aparato bélico, e com todo saudosismo de uma época de sangue. Você se lembra quando discutíamos como seria o Projeto de Lei que circundaria os estádios e proibiria o Ir e Vir da população? Pois sequer precisamos marchar até a "área FIFA", foi no centro mesmo. No coraçao central, no encontro das avenidas, em frente ao antigo teatro (agora revitalizado), alí,  onde nossos ascendentes foram expulsos pras periferias, alí onde tudo começou...

    Bem alí, na Praça que leva o nome Sete de Setembro, há exatos 10km do Mineirão. Todas as vias foram fechadas, não era "área FIFA", portanto, nõ haveria justificativa... Mas é "área capital, área cidade-mercado". Somos transeuntes na cidade mercado, estamos atrapalhando os negócios, estamos existindo, num espaço onde se deve “ter” e não “ser”. Eles não nos querem, nunca quiseram.

    Tivemos de nos reunir pra podermos andar metros ate a Praça da Estação, precisamos praticamente pedir "bença" ao Estado repressor para nos permitir ANDAR até a próxima praça, assim como os vadios precisavam pedir ao Estado um número que os localizava, assim como abaixo dos viadutos, nossos irmãozinhos de outrora precisavam de permissão para andar até a próxima estação.

    São tempos difíceis para nós, no entanto te digo por aqui, você esteve conosco.. Há uma ocupação muito bonita que leva seu nome, e os meninos do William Rosa são massa! Estão na luta! Sabem que aqui no palco é bala de borracha, mas na morada deles a bala é de verdade, no entanto estão aqui, e estamos com eles, e estamos com você!

    Me desculpe a falta de parágrafo e a escrita embolada (você sempre chamou minha atenção por isso, risos)...

Até a próxima!

Luara Colpa